sábado, 4 de junho de 2011

Palocci e o patrimônio


Fonte:  Sobre Palavras - VEJA.com 

patrimônio do ministro Antonio Palocci, que cresceu vinte vezes em quatro anos, é uma palavra curiosa. Vinda do latim patrimonium – que já nasceu com o sentido que carrega até hoje em português, o de conjunto dos bens paternos, posses de família, herança –, guarda com a palavra matrimônio uma reveladora relação de falsa simetria. Uma deriva de pater, “pai”. A outra, de mater, “mãe”. E terminam aí as semelhanças.

Matrimonium, “casamento”, nunca significou nem de longe “conjunto dos bens maternos”, pela simples razão machista de que às mulheres não era concedido o direito de ter tais coisas. Qual foi, por séculos, o único bem ao alcance delas depois que deixavam a guarda dos pais? O casamento, pois é. Por meio dele, caso se comportassem direitinho, podiam ter acesso a usufruir de alguns confortos proporcionados pelo patrimônio. O preço que pagavam era praticamente fazer parte dele.

Pode-se traçar, sem abusar da licença poética, uma correspondência entre essa falsa simetria de patrimônio e matrimônio e outros sinais de machismo ancestral embutidos na língua. Uma corrente de internet que fez sucesso poucos anos atrás listava vários deles. Exemplos: um aventureiro é alguém que gosta de correr riscos, uma aventureira é uma prostituta; um pistoleiro é um assassino de aluguel, uma pistoleira é uma prostituta; um vagabundo é quem não trabalha, uma vagabunda é uma… prostituta.

Mas é claro que Palocci não tem nada a ver com as discretas vilezas da língua nossa de cada dia. Já lhe basta tentar explicar o patrimônio.

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